Ela odiava as manhãs. À medida que o despertador tiquetaqueava irritante ao seu lado, o corpo alvo se contorcia preguiçosamente debaixo dos cobertores. Estava frio lá fora, mas ela permanecia quente, talvez com a mesma ilusão de calor que só um abraço proporcionaria.
Os olhos cor de âmbar remexiam sob as pálpebras apertadas pela poeira do sono, no entanto, não fora preciso muito mais do que três piscadelas ágeis para escancará-los completamente.
Era cedo, pouco mais do que cinco e meia e ela sentia como estivesse dormindo durante séculos. Voltou seus orbes amarelos para a janela, a cortina estava aberta, como sempre, e o vento entrava sem piedade trazendo o frescor das coisas sem vida lá fora.
O dia amanheceu cinza, típico do solstício de inverno que se mantinha glorioso lá fora. Chovia.
No mural, fotos de uma realidade alternativa, outra vida da qual não fazia mais parte. Sorrisos perfeitos, rostos abrilhantados, cabelos ao vento, beijos de boa noite, olhos azuis. Não lhe cabia um nome, uma voz, um toque, um gesto, apenas uma palavra poderia definir quem ele era: Morte.
Ela jamais aceitou e estava fadada a percorrer todos os caminhos tortuosos da vida em busca de uma razão, um por quê, um sentido que o fizera deixá-la assim, só. –Maldito anjo negro! – A jovem repetia enquanto vagarosamente movia o corpinho já pálido e desprovido de vida até a pequena penteadeira no centro do aposento. Escondia-se com maquiagem no espelho, dizia a si mesma que um dia a dor cessaria e tudo ficaria bem. Mas era mentira. Na gaveta, um frasco azul. Bonito, tentador, vistoso, transparente e mortal. De todas as coisas que já tivera vontade de fazer, esta, com certeza era a mais cruel e desesperadoramente necessária do que qualquer outra. Na superfície refletidora também havia retratos, a mesma face, os mesmos orbes cor de safira tais como o liquido dançante dentro do vidro que jazia agora em suas mãos.
Os olhos cor de âmbar a pouco despertados marejavam enquanto passeavam ágeis pelas fotografias. Eram memórias, eram lembranças, eram pedaços de uma jovem que estava partida ao meio. Era sofrível.
Desenroscou a rolha do pequeno objeto e sem demora lançou o conteúdo contra os lábios abertos. Talvez fosse normal sentir medo nesse tipo de situação, acabar com a dor por mais tentador que fosse, ainda era perturbador. Estremeceu. Cada centímetro do corpo paralisado em um transe mágico que poderia muito bem ter sido tirado de um conto de Shakespeare.
Ela esfregou os dedos dos pés, notando que ainda podia andar, que os sentidos ainda funcionavam e que por mais estranho que parecesse, podia pensar. Tocou o chão com os pés gelados como os de um cadáver. Não havia vida, não havia sangue, não havia calor e nem culpa. Constante e inabalável, curada ela estava enquanto passo a passo se aproximava da janela. Quando muito perto estava, observou o rostinho de alabastro refletir no vitral, as cores haviam desaparecido assim como o inverno finalmente chegara lá fora.
As gotículas mornas lhe causavam a engraçada sensação de estar tomando uma ducha quente. Partícula por partícula elas caiam-lhe sobre a face lavando sua alma e seu corpo. – O que está fazendo ai dentro? – A suave voz do anjo negro rasgou-lhe os tímpanos e voltou sua atenção para a figura que completamente encharcada da tempestade, permanecia parado diante dela.
-Eu não quero sair... Estou com medo. – Não era mentira. A suave menção de estar deixando a vida pode parecer um pouco amedrontadora, não acha?
-Medo da chuva? – O sorriso branco, perolado se abriu para ela, como um abraço de mãe se abre para um filho. Estava segura, podia ir para fora que nada lhe aconteceria.
Perna por perna, passo por passo se aproximou e ao invés de uma sombra escura encontrou a mão alva estendida para ela. Já havia se esquecido do quanto era quente, do quanto aquela pele era macia e acolhedora.
Por fim, despejou o corpo sobre sua pequena não tão falsa ilusão. Alguns segundos apertados em carinho e abraços foram mais do que suficientes para ter a certeza de que não havia coisa alguma capaz de tirá-lo de suas mãos agora.
O brilho dos orbes de safira lhe envolveram com sua luz, um contraste que estaria a salvo para sempre. Castanho no Azul por toda a eternidade. Cerrou os olhos e então a chuva parou.
