quarta-feira, 22 de agosto de 2012

You need to be here! You need to be here with ME!




A névoa de inverno cobria a espessa camada de ar nos terrenos Irlandeses, todo o castelo dormia silenciosamente envolto em seus sonhos de amor e prosperidade enquanto no sétimo andar, uma pequena lamparina se mantinha acesa e, solitário, eternamente perdido em minhas causas, eu permanecia aquecido junto à meus livros de feitiços e artes das trevas, contrabandeados discretamente pelo porto de desembargadores direto das cavernas do Mestre Obscuro para as malas debaixo da cama onde dormi durante todos esses anos nas masmorras. Havia alguns meses desde que meu sinistro mentor mencionou as possíveis localizações do Styx, o famoso rio que percorria as dimensões etéreas, mas principalmente, as do submundo, onde certamente seria capaz de encontrar a alma de minha doce irmã e trazê-la de volta. De todos os possíveis portais existentes para encontrar as margens do poderoso caminho aquático, aquele referente às cascatas de Ishtown na província de Fynigan se tornara o alvo perfeito. 

O Styx era um mistério até mesmo para os mais poderosos bruxos das trevas, com todas as suas bifurcações e trilhas completamente opostas, cada uma secretamente memorizada por seus desbravadores espirituais: Os Barqueiros. Era perigosíssimo encarar o estranho rio sozinho – visto que não se conhecia sua procedência ou onde começava ou terminava ou mesmo em quais planos espirituais suas águas atravessavam. A única maneira aparentemente segura de chegar até seu destino sobre este transporte era, sem sombra de dúvidas, agradando aos barqueiros. Piores do que qualquer outra criatura, estes seres sem alma provém das margens da dimensão etérea, talvez os únicos que mediante o pagamento adequado, transportam os forasteiros a qualquer lugar.


 Enquanto passava meus dedos no decorrer das páginas amareladas dos volumes raros que conseguira emprestado de Oculto, o suor deslizava sem pudor por meu rosto, respingando no papel e consecutivamente causando borrões na tinta velha. Passei a mão para tentar eliminar a umidade da face, no entanto, o frio cortante que reinava lá fora somado com a podridão mofada daquele aposento fazia minha pele empalidecer em conjunto com meus pulmões que secavam ao aspirar tanta poeira. Somente um ritual pagão era capaz de colocar-me cara a cara com um desses seres - os quais eu me referi mais acima- sombrios, o mesmo que estava aprendendo junto a meu mestre até ter que parar e deixar tudo para regressar à terra e toda a burocracia da magia branca.

O rito consistia em necromancia e sangue, a essência da alma viajante era imprescindível para a concretização da transação entre um corpo físico propagado no universo espiritual, assim a vitae de uma alma serviria como pagamente pela aparição de um dos barqueiros num planos material. Com giz e carvão, passei a traçar o famoso pentagrama Wicca no chão de pedra e mármore, as inscrições celtas transcritas nos livros vieram logo depois e para mim esta era a parte mais insuportável, pois requeria destreza e coordenação impecáveis, coisa que eu, Eithan Florenzza, não era um especialista treinado por assim dizer.
Se Emma estivesse em meu lugar e fosse obrigada a percorrer as mesmas sentenças para trazer-me de volta, com certeza teria maior sucesso com suas mãozinhas delicadas e olhos atentos. Como sentia falta de minha pequena, com sua risada estridente e as danças ao meio dia, tão linda, pura e inocente que jamais deveria ter deixado este plano da forma como fizera.

Bom, estava na hora, estalei os dedos e girei o pescoço sentindo cada vértebra inútil estremecer e estourar em ruídos secos por debaixo da carne. -Quod sol stetisset, ut omnia sint renati mortuus reviviscit.- Cuspi as palavras de forma instintiva, o timbre já não era mais o mesmo e tampouco a saliva que antes me era abundante agora secava à boca. -Mortui vivis ambulamus reverti. – Respirei fundo, engolindo enormes goladas de ar que machucaram ao chegar aos pulmões, aquela era a pior experiência que já consegui ter somando todas as tentativas anteriores. De fato, a musica fúnebre começou a tocar e a penumbra foi oscilando pelo espaço, tomando conta de cada milímetro de pedra e então o corpo inteiro começou a tremer, cada fibra, cada elemento, cada molécula e partícula da escultura de alabastro se partiu causando um hipotermia instantânea. Eu estava enfraquecendo, logo não suportaria mais manter meu porte de mago perante o ritual.

Com o punhal na mão, toquei os rubis do cabo e fiz com que a lamina prateada viesse de encontro à minha mão e rasgasse a carne para que minhas próprias gotas preciosas caíssem sobre os escritos. Assisti meu sangue entornar e escorrer e após este instante, a voz de Oculto invadiu minha mente, devorando meus tímpanos, me fazendo esquecer completamente da orquestra fúnebre que seguia meus passos no plano etéreo. “Você não está pronto, discípulo, volte e comece de novo”
Minhas pálpebras explodiram quando meus orbes avelãs foram expostos, aderindo seu habitual tom avermelhado e feroz que somente me pertencia em momentos extremos. A raiva percorreu minhas veias e artérias e mesmo em meu cérebro pude sentir o latejar por debaixo da pele. Eu é quem estava morto e não havia mais solução para isso. Do âmago do estomago bolhas ferveram num berro estridente, ainda com o objeto ensanguentado e uma das mãos ferida, agarrei-me ao impulso destruidor que tantas outras vezes me tirara o controle e arremessei cada objeto que se transpusera em meu caminho.
Os livros de oculto soltaram suas preciosas folhas enquanto voavam de acordo com as paredes e prateleiras, as quais desabavam com sua imensidão de livros, o carvão e o giz me marcaram o rosto enquanto eram esmagados por meus membros e logo a mesa fora arremessada a um canto. A devastação era a próxima etapa, não do local, já incrivelmente redecorado por moi, mas sim da alma. Não há destruição mais entorpecedora do que a do espírito, aquele que nunca pode ser consertado ou curado.
Apertei o punhal firmemente e em seguida um novo ruído invadiu meu santuário, a maçaneta fizera “click” e depois o ranger da porta trouxe a certeza de que não estava mais seguro, junto a uma pessoa que se esgueirou pelas trevas. – SUMA MALDITO!- A arma ensanguentada voou pelos ares com uma força que talvez em meu estado real eu desconhecesse, entretanto, se acertou ou não o intruso envolto na escuridão, não fazia a menor ideia, uma vez que tudo o que desejava do fundo de meu ser debilitado era sumir – ou melhor, desintegrar por inteiro. Ajoelhado, mantendo os braços sobre o rosto e assim, o frio desapareceu e o calor da compulsão começou a trespassar adrenalina.
As lágrimas foram o ápice de meu ato dramático, incontrolável, porém nada teatral, elas lavavam o suor e a dor, mas jamais poderiam acabar com o rasgo que o plano etéreo e o fracasso causaram no mais profundo poço que era meu interior. Estava perdido, sem cordas ou amarras, sem mapas ou bussolas e certamente, ninguém apareceria pra me resgatar.

2 comentários:

  1. Olá Letícia,gostaria de agradecer ao seu elogio ao meu blog,vejo que seu blog é novo,e que vc gosta de textos românticos como eu.
    Já estou te seguindo.
    Beijos e até mais...

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  2. obrigada, anjo. E sim para as duas questões, haha. Eu amo textos românticos e o blog é bem recente. Espero que continue gostando do que vê aqui.

    bgsss ;*

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