Enquanto passava meus dedos no decorrer das páginas amareladas dos volumes raros que conseguira emprestado de Oculto, o suor deslizava sem pudor por meu rosto, respingando no papel e consecutivamente causando borrões na tinta velha. Passei a mão para tentar eliminar a umidade da face, no entanto, o frio cortante que reinava lá fora somado com a podridão mofada daquele aposento fazia minha pele empalidecer em conjunto com meus pulmões que secavam ao aspirar tanta poeira. Somente um ritual pagão era capaz de colocar-me cara a cara com um desses seres - os quais eu me referi mais acima- sombrios, o mesmo que estava aprendendo junto a meu mestre até ter que parar e deixar tudo para regressar à terra e toda a burocracia da magia branca.
O rito consistia em necromancia e sangue, a essência da alma viajante era imprescindível para a concretização da transação entre um corpo físico propagado no universo espiritual, assim a vitae de uma alma serviria como pagamente pela aparição de um dos barqueiros num planos material. Com giz e carvão, passei a traçar o famoso pentagrama Wicca no chão de pedra e mármore, as inscrições celtas transcritas nos livros vieram logo depois e para mim esta era a parte mais insuportável, pois requeria destreza e coordenação impecáveis, coisa que eu, Eithan Florenzza, não era um especialista treinado por assim dizer.
Se Emma estivesse em meu lugar e fosse obrigada a percorrer as mesmas sentenças para trazer-me de volta, com certeza teria maior sucesso com suas mãozinhas delicadas e olhos atentos. Como sentia falta de minha pequena, com sua risada estridente e as danças ao meio dia, tão linda, pura e inocente que jamais deveria ter deixado este plano da forma como fizera.
Com o punhal na mão, toquei os rubis do cabo e fiz com que a lamina prateada viesse de encontro à minha mão e rasgasse a carne para que minhas próprias gotas preciosas caíssem sobre os escritos. Assisti meu sangue entornar e escorrer e após este instante, a voz de Oculto invadiu minha mente, devorando meus tímpanos, me fazendo esquecer completamente da orquestra fúnebre que seguia meus passos no plano etéreo. “Você não está pronto, discípulo, volte e comece de novo”
Minhas pálpebras explodiram quando meus orbes avelãs foram expostos, aderindo seu habitual tom avermelhado e feroz que somente me pertencia em momentos extremos. A raiva percorreu minhas veias e artérias e mesmo em meu cérebro pude sentir o latejar por debaixo da pele. Eu é quem estava morto e não havia mais solução para isso. Do âmago do estomago bolhas ferveram num berro estridente, ainda com o objeto ensanguentado e uma das mãos ferida, agarrei-me ao impulso destruidor que tantas outras vezes me tirara o controle e arremessei cada objeto que se transpusera em meu caminho.
Os livros de oculto soltaram suas preciosas folhas enquanto voavam de acordo com as paredes e prateleiras, as quais desabavam com sua imensidão de livros, o carvão e o giz me marcaram o rosto enquanto eram esmagados por meus membros e logo a mesa fora arremessada a um canto. A devastação era a próxima etapa, não do local, já incrivelmente redecorado por moi, mas sim da alma. Não há destruição mais entorpecedora do que a do espírito, aquele que nunca pode ser consertado ou curado.
Apertei o punhal firmemente e em seguida um novo ruído invadiu meu santuário, a maçaneta fizera “click” e depois o ranger da porta trouxe a certeza de que não estava mais seguro, junto a uma pessoa que se esgueirou pelas trevas. – SUMA MALDITO!- A arma ensanguentada voou pelos ares com uma força que talvez em meu estado real eu desconhecesse, entretanto, se acertou ou não o intruso envolto na escuridão, não fazia a menor ideia, uma vez que tudo o que desejava do fundo de meu ser debilitado era sumir – ou melhor, desintegrar por inteiro. Ajoelhado, mantendo os braços sobre o rosto e assim, o frio desapareceu e o calor da compulsão começou a trespassar adrenalina.
As lágrimas foram o ápice de meu ato dramático, incontrolável, porém nada teatral, elas lavavam o suor e a dor, mas jamais poderiam acabar com o rasgo que o plano etéreo e o fracasso causaram no mais profundo poço que era meu interior. Estava perdido, sem cordas ou amarras, sem mapas ou bussolas e certamente, ninguém apareceria pra me resgatar.
Olá Letícia,gostaria de agradecer ao seu elogio ao meu blog,vejo que seu blog é novo,e que vc gosta de textos românticos como eu.
ResponderExcluirJá estou te seguindo.
Beijos e até mais...
obrigada, anjo. E sim para as duas questões, haha. Eu amo textos românticos e o blog é bem recente. Espero que continue gostando do que vê aqui.
ResponderExcluirbgsss ;*