quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Have you ever seen the rain?




Ela odiava as manhãs. À medida que o despertador tiquetaqueava irritante ao seu lado, o corpo alvo se contorcia preguiçosamente debaixo dos cobertores. Estava frio lá fora, mas ela permanecia quente, talvez com a mesma ilusão de calor que só um abraço proporcionaria.
Os olhos cor de âmbar remexiam sob as pálpebras apertadas pela poeira do sono, no entanto, não fora preciso muito mais do que três piscadelas ágeis para escancará-los completamente. 
Era cedo, pouco mais do que cinco e meia e ela sentia como estivesse dormindo durante séculos. Voltou seus orbes amarelos para a janela, a cortina estava aberta, como sempre, e o vento entrava sem piedade trazendo o frescor das coisas sem vida lá fora. 
O dia amanheceu cinza, típico do solstício de inverno que se mantinha glorioso lá fora.  Chovia. 
No mural, fotos de uma realidade alternativa, outra vida da qual não fazia mais parte. Sorrisos perfeitos, rostos abrilhantados, cabelos ao vento, beijos de boa noite, olhos azuis.  Não lhe cabia um nome, uma voz, um toque, um gesto, apenas uma palavra poderia definir quem ele era: Morte. 
Ela jamais aceitou e estava fadada a percorrer todos os caminhos tortuosos da vida em busca de uma razão, um por quê, um sentido que o fizera deixá-la assim, só. –Maldito anjo negro! – A jovem repetia enquanto vagarosamente movia o corpinho já pálido e desprovido de vida até a pequena penteadeira no centro do aposento. Escondia-se com maquiagem no espelho, dizia a si mesma que um dia a dor cessaria e tudo ficaria bem. Mas era mentira. Na gaveta, um frasco azul. Bonito, tentador, vistoso, transparente e mortal. De todas as coisas que já tivera vontade de fazer, esta, com certeza era a mais cruel e desesperadoramente necessária do que qualquer outra. Na superfície refletidora também havia retratos, a mesma face, os mesmos orbes cor de safira tais como o liquido dançante dentro do vidro que jazia agora em suas mãos.  
Os olhos cor de âmbar a pouco despertados marejavam enquanto passeavam ágeis pelas fotografias. Eram memórias, eram lembranças, eram pedaços de uma jovem que estava partida ao meio. Era sofrível. 
Desenroscou a rolha do pequeno objeto e sem demora lançou o conteúdo contra os lábios abertos. Talvez fosse normal sentir medo nesse tipo de situação, acabar com a dor por mais tentador que fosse, ainda era perturbador. Estremeceu. Cada centímetro do corpo paralisado em um transe mágico que poderia muito bem ter sido tirado de um conto de Shakespeare.  
Ela esfregou os dedos dos pés, notando que ainda podia andar, que os sentidos ainda funcionavam e que por mais estranho que parecesse, podia pensar. Tocou o chão com os pés gelados como os de um cadáver. Não havia vida, não havia sangue, não havia calor e nem culpa. Constante e inabalável, curada ela estava enquanto passo a passo se aproximava da janela. Quando muito perto estava, observou o rostinho de alabastro refletir no vitral, as cores haviam desaparecido assim como o inverno finalmente chegara lá fora. 
As gotículas mornas lhe causavam a engraçada sensação de estar tomando uma ducha quente. Partícula por partícula elas caiam-lhe sobre a face lavando sua alma e seu corpo.  – O que está fazendo ai dentro? – A suave voz do anjo negro rasgou-lhe os tímpanos e voltou sua atenção para a figura que completamente encharcada da tempestade, permanecia parado diante dela. 
-Eu não quero sair... Estou com medo. – Não era mentira. A suave menção de estar deixando a vida pode parecer um pouco amedrontadora, não acha? 
-Medo da chuva? – O sorriso branco, perolado se abriu para ela, como um abraço de mãe se abre para um filho. Estava segura, podia ir para fora que nada lhe aconteceria. 
Perna por perna, passo por passo se aproximou e ao invés de uma sombra escura encontrou a mão alva estendida para ela. Já havia se esquecido do quanto era quente, do quanto aquela pele era macia e acolhedora. 
Por fim, despejou o corpo sobre sua pequena não tão falsa ilusão. Alguns segundos apertados em carinho e abraços foram mais do que suficientes para ter a certeza de que não havia coisa alguma capaz de tirá-lo de suas mãos agora. 
O brilho dos orbes de safira lhe envolveram com sua luz, um contraste que estaria a salvo para sempre. Castanho no Azul por toda a eternidade. Cerrou os olhos e então a chuva parou.

sábado, 25 de agosto de 2012

Why Butterflies?


  • Trevor: Por que você tem medo de borboletas?
  • Anne: Porque elas não vivem mais do que 24 horas.
  • Trevor: E o que isso tem a ver?
  • Anne: As vezes imagino que as pessoas são como borboletas. Se você fosse uma, eu teria de aguentar saber que te terei num dia e no outro não mais.
  • Trevor: Mas não é assim que as coisas funcionam com os humanos?
  • Anne: Talvez, mas eu prefiro acreditar que vai ficar comigo pra sempre.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

You need to be here! You need to be here with ME!




A névoa de inverno cobria a espessa camada de ar nos terrenos Irlandeses, todo o castelo dormia silenciosamente envolto em seus sonhos de amor e prosperidade enquanto no sétimo andar, uma pequena lamparina se mantinha acesa e, solitário, eternamente perdido em minhas causas, eu permanecia aquecido junto à meus livros de feitiços e artes das trevas, contrabandeados discretamente pelo porto de desembargadores direto das cavernas do Mestre Obscuro para as malas debaixo da cama onde dormi durante todos esses anos nas masmorras. Havia alguns meses desde que meu sinistro mentor mencionou as possíveis localizações do Styx, o famoso rio que percorria as dimensões etéreas, mas principalmente, as do submundo, onde certamente seria capaz de encontrar a alma de minha doce irmã e trazê-la de volta. De todos os possíveis portais existentes para encontrar as margens do poderoso caminho aquático, aquele referente às cascatas de Ishtown na província de Fynigan se tornara o alvo perfeito. 

O Styx era um mistério até mesmo para os mais poderosos bruxos das trevas, com todas as suas bifurcações e trilhas completamente opostas, cada uma secretamente memorizada por seus desbravadores espirituais: Os Barqueiros. Era perigosíssimo encarar o estranho rio sozinho – visto que não se conhecia sua procedência ou onde começava ou terminava ou mesmo em quais planos espirituais suas águas atravessavam. A única maneira aparentemente segura de chegar até seu destino sobre este transporte era, sem sombra de dúvidas, agradando aos barqueiros. Piores do que qualquer outra criatura, estes seres sem alma provém das margens da dimensão etérea, talvez os únicos que mediante o pagamento adequado, transportam os forasteiros a qualquer lugar.


 Enquanto passava meus dedos no decorrer das páginas amareladas dos volumes raros que conseguira emprestado de Oculto, o suor deslizava sem pudor por meu rosto, respingando no papel e consecutivamente causando borrões na tinta velha. Passei a mão para tentar eliminar a umidade da face, no entanto, o frio cortante que reinava lá fora somado com a podridão mofada daquele aposento fazia minha pele empalidecer em conjunto com meus pulmões que secavam ao aspirar tanta poeira. Somente um ritual pagão era capaz de colocar-me cara a cara com um desses seres - os quais eu me referi mais acima- sombrios, o mesmo que estava aprendendo junto a meu mestre até ter que parar e deixar tudo para regressar à terra e toda a burocracia da magia branca.

O rito consistia em necromancia e sangue, a essência da alma viajante era imprescindível para a concretização da transação entre um corpo físico propagado no universo espiritual, assim a vitae de uma alma serviria como pagamente pela aparição de um dos barqueiros num planos material. Com giz e carvão, passei a traçar o famoso pentagrama Wicca no chão de pedra e mármore, as inscrições celtas transcritas nos livros vieram logo depois e para mim esta era a parte mais insuportável, pois requeria destreza e coordenação impecáveis, coisa que eu, Eithan Florenzza, não era um especialista treinado por assim dizer.
Se Emma estivesse em meu lugar e fosse obrigada a percorrer as mesmas sentenças para trazer-me de volta, com certeza teria maior sucesso com suas mãozinhas delicadas e olhos atentos. Como sentia falta de minha pequena, com sua risada estridente e as danças ao meio dia, tão linda, pura e inocente que jamais deveria ter deixado este plano da forma como fizera.

Bom, estava na hora, estalei os dedos e girei o pescoço sentindo cada vértebra inútil estremecer e estourar em ruídos secos por debaixo da carne. -Quod sol stetisset, ut omnia sint renati mortuus reviviscit.- Cuspi as palavras de forma instintiva, o timbre já não era mais o mesmo e tampouco a saliva que antes me era abundante agora secava à boca. -Mortui vivis ambulamus reverti. – Respirei fundo, engolindo enormes goladas de ar que machucaram ao chegar aos pulmões, aquela era a pior experiência que já consegui ter somando todas as tentativas anteriores. De fato, a musica fúnebre começou a tocar e a penumbra foi oscilando pelo espaço, tomando conta de cada milímetro de pedra e então o corpo inteiro começou a tremer, cada fibra, cada elemento, cada molécula e partícula da escultura de alabastro se partiu causando um hipotermia instantânea. Eu estava enfraquecendo, logo não suportaria mais manter meu porte de mago perante o ritual.

Com o punhal na mão, toquei os rubis do cabo e fiz com que a lamina prateada viesse de encontro à minha mão e rasgasse a carne para que minhas próprias gotas preciosas caíssem sobre os escritos. Assisti meu sangue entornar e escorrer e após este instante, a voz de Oculto invadiu minha mente, devorando meus tímpanos, me fazendo esquecer completamente da orquestra fúnebre que seguia meus passos no plano etéreo. “Você não está pronto, discípulo, volte e comece de novo”
Minhas pálpebras explodiram quando meus orbes avelãs foram expostos, aderindo seu habitual tom avermelhado e feroz que somente me pertencia em momentos extremos. A raiva percorreu minhas veias e artérias e mesmo em meu cérebro pude sentir o latejar por debaixo da pele. Eu é quem estava morto e não havia mais solução para isso. Do âmago do estomago bolhas ferveram num berro estridente, ainda com o objeto ensanguentado e uma das mãos ferida, agarrei-me ao impulso destruidor que tantas outras vezes me tirara o controle e arremessei cada objeto que se transpusera em meu caminho.
Os livros de oculto soltaram suas preciosas folhas enquanto voavam de acordo com as paredes e prateleiras, as quais desabavam com sua imensidão de livros, o carvão e o giz me marcaram o rosto enquanto eram esmagados por meus membros e logo a mesa fora arremessada a um canto. A devastação era a próxima etapa, não do local, já incrivelmente redecorado por moi, mas sim da alma. Não há destruição mais entorpecedora do que a do espírito, aquele que nunca pode ser consertado ou curado.
Apertei o punhal firmemente e em seguida um novo ruído invadiu meu santuário, a maçaneta fizera “click” e depois o ranger da porta trouxe a certeza de que não estava mais seguro, junto a uma pessoa que se esgueirou pelas trevas. – SUMA MALDITO!- A arma ensanguentada voou pelos ares com uma força que talvez em meu estado real eu desconhecesse, entretanto, se acertou ou não o intruso envolto na escuridão, não fazia a menor ideia, uma vez que tudo o que desejava do fundo de meu ser debilitado era sumir – ou melhor, desintegrar por inteiro. Ajoelhado, mantendo os braços sobre o rosto e assim, o frio desapareceu e o calor da compulsão começou a trespassar adrenalina.
As lágrimas foram o ápice de meu ato dramático, incontrolável, porém nada teatral, elas lavavam o suor e a dor, mas jamais poderiam acabar com o rasgo que o plano etéreo e o fracasso causaram no mais profundo poço que era meu interior. Estava perdido, sem cordas ou amarras, sem mapas ou bussolas e certamente, ninguém apareceria pra me resgatar.